Janeiro de 1993.

O Nirvana estava no Brasil, a banda grunge que ecoou seu som em escala mundial acabara de fazer um dos piores shows da carreira. Kurt Cobain não estava nada bem e deixou o palco engatinhando.
Em 1993, o Nirvana já era a maior banda do mundo. “Smells like teen spirit” tocava no planeta inteiro, sem parar. Os superstars milionários não sabiam, mas tinham um contato no Brasil, o cantor punk João Gordo.
João Gordo, tinha conhecido Dave Grohl, o baterista da banda, em um festival na Holanda em 1979, quando o Ratos de Porão fazia sua primeira turnê pela Europa.
"A banda dele tocou no sábado e nós tocamos no domingo. E o Dave ficou para ver a nossa banda, porque já tinha ouvido falar da gente e tal. Depois, nós jantamos juntos, ele tinha uma tatuagem de um mesmo tatuador italiano que eu. Aí a gente ficou meio que amigo e quando eu vi que ele tinha entrado para o Nirvana eu pensei: “Porra, que legal, é o cara!”, diz João.
No Hollywood Rock em 93, o Nirvana veio e João Gordo não teve dúvidas, tentou e conseguiu se infiltrar na "banca". A proeza foi concluída graças ao roadier de Kurt Cobain, o ex-vocalista da banda Exploited Big Jonh.
"Nós nos reconhecemos e o cara me colocou em contato com a banda, o Dave lembrou de mim e pronto. Fiquei em contato direto com os caras, fui no busão, apresentei o show! Foi aí que eu conheci a Courtney Love e o Kurt Cobain." lembra.
E sem mais delongas, o pós show no Rio de Janeiro.
Courtney Love queria heroína, e João explicou que no Brasil (tal época) era difícil, o lance era a cocaína. Pois bem, final da história.
"Lembro que a gente foi para uma balada numa casa noturna e ficamos consumindo um monte de porcaria, cara. Ficou todo mundo doido até umas 10 horas da manhã. Eu, os dois, o Flea (do Red hot Chilli Peppers), uma mina do Hole (banda da Courtney), do L7. Foi muito doido estar com esses caras nessa balada, o Kurt Cobain “de cavalinho” em mim, foram coisas que me marcaram bastante".

Já em São Paulo, depois de um show estranhíssimo no Morumbi, Dave Grohl e o baixista Chris Novoselic foram dormir. Kurt Cobain e Courtney Love não. “Quem estava a fim de enfiar o pé na jaca mesmo era o casal. E realmente enfiaram o pé na jaca até o joelho”, garante João Gordo.
A presença de Courtney Love, a "temperamental escandalosa mulher" segundo Gordo foi marcante e engraçada.
“Inclusive ela ficou com ciúme da minha ex-namorada. Eu tive que explicar que não tem nada a ver e tal. Ela ficou bem enciumada. Queria bater na menina”.
“Ela olhou, e tacou um pedaço de melancia. Começou a discutir com a cara na minha frente e foi muito engraçado”, revela Alê Briganti, ex-namorada de João Gordo.
A turma caminhava pela rua Augusta, e adentraram na casa especializada em rock e grunge da época, o Dead Temple. A casa ficava em um lugar onde hoje só resta um terreno com uma construção. Na época, era um lugar importante que atraía o pessoal de São Paulo que gostava de rock.
“A gente entrou e o dono, que é o Gigio, meu amigo, abaixou as portas para ninguém mais entrar nem sair”.
Alê Briganti conta. “O Kurt sentou do meu lado e perguntou o que eu tinha? Eu disse que estava com muita dor de estômago. Ele disse que tinha um remédio ótimo. Ele pegou e sacou uma ampola da bolsa dele. Eu fui no banheiro, como boa fã, fingi que usei o negócio e guardei”.
Buprenorfina é o nome técnico do “presente” que o Kurt Cobain deu para a Alê. Presente de grego, pois é um anestésico poderoso, parecido com a morfina. Pode causar dependência grave.
“Eles beberam muito a noite inteira. Todo mundo caiu. Nós fomos até as 8h do outro dia”, revela o dono da boate “Gigio” Wornicow Borges.
Já era de manhã, quando João Gordo, Alê, Kurt e Courtney decidiram passear.
“Todo mundo ruim e quando nós estávamos na Amaral Gurgel, a Courtney Love viu um travesti, um negão com um vestido laranja e tinha muito silicone. O cara era quadrado. Ela pediu para parar o carro. Desceu do carro, ficou olhando e pegando no cara. Ela sacou do bolso uns US$ 300 e deu na mão do cara. Era a mesma boca do lixo que encontramos o jornalista Marcelo Orozco, autor de um livro que analisa a personalidade de Kurt Cobain".

“O próprio Kurt às vezes usava vestidos em shows. Era mais um negócio de chocar, de ir contra a convenção. Então, tudo que saía fora do certinho, fora do previsto acabava atraindo o Kurt”, explica o jornalista.
Um Kurt de vida dupla. Se João, Alê e Gigio conheceram o Cobain das festas, o engenheiro de som Dalmo Beloti do Rio de Janeiro teve contato com outro Kurt, o líder perfeccionista. Enquanto esteve no Brasil, o Nirvana foi a um estúdio carioca quase todos os dias.
Para a alegria dos fãs de Courtney Love, que não são poucos, Dalmo reforça uma antiga suspeita: a de que o disco mais conhecido da banda dela, o Hole, foi na verdade composto e tocado pelo Nirvana.
“Tudo o que eles estavam ensaiando, na verdade, estava sendo gravado e tinham coisas que estavam gravando o que, na verdade, o Nirvana tocava, mas era com certeza para a banda dela. Em momento nenhum eu a vi tocar”, diz Dalmo Beloti.
E as fitas, onde estão?
“Eles simplesmente pediram para embrulhar tudo. Aí tudo foi colocado em caixas e saíram daqui com as caixas na mão e ninguém sabe para onde foi realmente. Dos três, com certeza o Kurt era o líder. Uma vez gravado, ele acertava os detalhes”, revela o produtor musical.
Um outro traço da personalidade de Kurt surge com clareza: a depressão. Nos desenhos de horror que ele fazia, nos textos de revolta. Em uma declaração desesperada, dizendo que se odiava e que queria morrer.
“Eu achei que estava super deprimido. Ele tinha um negócio na camisa dele escrito, em inglês ‘Eu me odeio, quero morrer’”, lembra João Gordo.
“Ele comentou várias vezes que odiava o estrelato, que não gostava”, diz Gigio.
Com as próprias palavras de João Gordo, "Ele era um cara viciado em heroína, depressivão. Um cara que não deu um sorriso, aliás, deu só um, quando eu disse que ele não tinha culpa de ganhar 20 milhões de dólares. Aí ele esboçou um sorriso. Nada além disso. Foi uma experiência foda".

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